O que é o 'Orçamento Secreto' e por que virou arma eleitoral contra Bolsonaro?
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- Mariana
Schreiber - @marischreiber
- Da
BBC News Brasil em Brasília
5 setembro 2022
CRÉDITO,REUTERS/ADRIANO MACHADO
Por que o uso de bilhões do orçamento federal por deputados e senadores
em gastos como obras, compra de equipamentos e procedimentos de saúde com pouca
transparência acabou ficando conhecido como Orçamento Secreto?
A novidade, que começou em 2020, segundo ano do governo de Jair
Bolsonaro (PL), veio acompanhada de indícios de corrupção em gastos para
aquisição de tratores, construção de escolas e exames médicos.
- O que é sigilo
de cem anos imposto por Bolsonaro e atacado por Lula
- O cálculo
arriscado de Bolsonaro por trás do ato de 7 de setembro em Copacabana
Por isso, o Orçamento Secreto virou arma de campanha dos adversários do
presidente na eleição. Ao ser questionado no Jornal Nacional sobre a relação
com o Congresso e o escândalo do Mensalão em seu primeiro governo (2003 a
2006), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) respondeu:
"Você acha que o mensalão, que tanto se falou, é mais grave do que
o Orçamento Secreto? Deixa eu lhe falar uma coisa, a vida política estabelecida
em regime democrático é a convivência democrática na diversidade. Nenhum
presidente da República num regime presidencialista governa se não estabelecer
relação com o Congresso Nacional", disse Lula a Renata Vasconcellos,
apresentadora do jornal da TV Globo.
Bolsonaro tem reagido às críticas dizendo que o Orçamento Secreto é uma
invenção do Congresso.
"Orçamento Secreto: eu vetei, o Parlamento derrubou o veto. É lei.
O seu partido, Lula, votou para derrubar o veto no tocante ao Orçamento
Secreto. Não tenho nada a ver com isso", disse o presidente ao responder à
candidata Simone Tebet (MDB), durante debate da TV Bandeirantes com os
principais concorrentes ao Palácio do Planalto.
Nessa reportagem, a BBC News Brasil explica esse tema em quatro pontos:
a origem do Orçamento Secreto; o papel de Bolsonaro na sua criação; as críticas
e os indícios de corrupção envolvendo esses recursos; e como, segundo
analistas, é possível ou não compará-lo ao Mensalão. Confira a seguir.
1. Como tudo começou
Todo ano o Congresso aprova uma lei com a previsão de gastos do governo
federal no ano seguinte, a chamada Lei Orçamentária Anual (LOA).
Essa lei estabelece, por exemplo, qual será a verba de cada ministério.
Parte dessas despesas é obrigatória, como o salário dos servidores, e outra
parte é discricionária, ou seja, o governo vai decidir em quais programas ou
obras vai aplicar os recursos.
Além disso, uma parte do orçamento fica na mão do Congresso. Isso não é novidade.
Há muitos anos existem as chamadas emendas parlamentares, por meio das quais
deputados e senadores destinam recursos federais para investimentos em sua base
eleitoral.
O que mudou a partir do Orçamento de 2020?
Antes, o grosso dos recursos controlados pelo Congresso era usado por
meio das emendas individuais. Nesse caso, os valores são distribuídos
igualmente entre os parlamentares e há total transparência sobre qual deputado
ou senador usou cada recurso e para qual finalidade.
Em 2022, por exemplo, o valor total das emendas individuais é R$ 9
bilhões, sendo R$ 17,6 milhões para cada parlamentar.
No entanto, em 2019, durante a elaboração da Lei Orçamentária de 2020, o
Congresso decidiu ampliar em grande volume um outro tipo de emenda parlamentar,
as chamadas emendas de relator-geral.
Essas emendas já existiam, mas eram usadas apenas para ajustes de
pequena monta no Orçamento. Em 2019, porém, o Congresso decidiu alocar R$ 30
bilhões para as emendas de relator-geral, retirando uma fatia grande do
orçamento que era gerida pelos ministérios e passando para o Parlamento.
Relator é o parlamentar responsável por fazer a versão final da proposta
de Lei Orçamentária que é votada pelo Congresso, após o governo enviar uma
proposta inicial. Essa versão final é elaborada em negociação com o Palácio do
Planalto e as lideranças dos partidos que atuam no Parlamento.
CRÉDITO,WALDEMIR BARRETO/AGÊNCIA SEN
Controle de bilhões do Orçamento passou para as mãos do Congresso num
processo pouco transparente
Diferentemente das emendas individuais, em que cada congressista escolhe
com autonomia para onde vai o dinheiro, no caso das emendas do relator é esse
parlamentar que centraliza as demandas dos parlamentares e envia para os
ministérios executarem os gastos, numa negociação que passa pelos principais
caciques do Congresso, em especial os presidentes da Câmara, Arthur Lira
(PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG).
No orçamento de 2022, o relator é o deputado Hugo Leal, do PSD do Rio de
Janeiro.
É por isso que Lula tem chamado Bolsonaro de "bobo da corte",
inferindo que ele já não tem poder sobre o Orçamento e quem manda nos gastos é
o Congresso.
2. Qual o papel de Bolsonaro nessa
história?
O presidente tem dito que vetou a ampliação de recursos para as emendas
de relator quando sancionou a Lei Orçamentária de 2020. Isso realmente ocorreu.
No entanto, quando há um veto do presidente, o Parlamento pode depois derrubar
esse veto em uma nova votação.
Diante desse risco, o governo aceitou negociar com os parlamentares e o
acordo final foi a divisão dos recursos. Com isso, em março de 2020, o
Congresso manteve o veto de Bolsonaro, mas o Palácio do Planalto enviou três
projetos de lei mantendo cerca de metade dos R$ 30 bilhões sob controle do
relator do Orçamento.
Segundo parlamentares, esse acordo foi feito nos bastidores com o então
ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, que hoje comanda outra
pasta, a Secretaria-Geral da Presidência da República.
Publicamente, Bolsonaro negava ter negociado com o Congresso, o que
irritou muitos parlamentares.
"Nós vamos manter o veto 52 (o veto aos R$ 30 bilhões para emendas
de relator), só que nos três PLNs (projetos de lei), o senhor Presidente da
República, em vários dispositivos, está mandando para cá aquilo que ele vetou.
Ele fala uma coisa publicamente, e manda para o Congresso Nacional aquilo que
ele condena", discursou o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) no dia da
votação.
Depois disso, os bilhões em emendas do relator não saíram mais do Orçamento
federal. Neste ano, são R$ 16,5 bilhões. Para 2023, o próprio governo sugere R$
19,4 bilhões. O valor está na proposta de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO)
para o próximo ano enviada por Bolsonaro ao Congresso no dia 31 de agosto.
O contexto político por trás do Orçamento Federal
E o que explica o Congresso ter conseguido controlar uma fatia tão
grande do orçamento? Bolsonaro se elegeu em 2018 com um discurso avesso à
política tradicional. Ele atacava os partidos do chamado Centrão e dizia que
não faria indicações políticas para os ministérios.
No primeiro ano do seu governo, ele manteve uma postura agressiva em
relação ao Congresso, mas a partir de 2020 isso começou a mudar. Naquele ano,
Bolsonaro se viu acuado por dezenas de pedidos de impeachment e pelo avanço das
investigações sobre o suposto esquema de rachadinha (desvio de recursos) que
teria sido operado no antigo gabinete de deputado estadual do hoje senador
Flávio Bolsonaro.
A situação ficou especialmente delicada para a família presidencial em
junho de 2020, quando o ex-assessor de Flávio, Fabrício Queiroz, foi preso. Ele
é acusado de ser o operador do suposto esquema de rachadinha, em que
funcionários fantasmas do gabinete do filho do presidente, então deputado
estadual no Rio de Janeiro, devolviam parte de seus salários.
Foi nesse contexto que Bolsonaro passou de crítico a aliado do Centrão,
um grupo de partidos que costuma apoiar qualquer governo, desde que tenha
acesso a verbas e cargos federais.
O presidente precisava de apoio no Congresso para evitar um processo de
impeachment e aprovar suas propostas, e o Orçamento Secreto se tornou um
elemento fundamental dessa equação.
CRÉ,WALDEMIR BARRETO/AGÊNCIA SENA
Bolsonaro tem reagido às críticas dizendo que o Orçamento Secreto é uma
invenção do Congresso
Recursos das emendas de relator teriam sido usados em troca de votos
para eleger o deputado Arthur Lira, do PP de Alagoas, como presidente da
Câmara, em fevereiro de 2021. Em entrevista ao site The Intercept Brasil, o
deputado Delegado Waldir, do União Brasil de Goiás, disse que recebeu a
promessa de R$ 10 milhões, mas que depois pôde usar apenas uma pequena parte
por ter rompido com o governo.
Lira não comentou as denúncias na época e, procurado pela BBC News Brasil,
não quis se manifestar agora.
Para o especialista em contas públicas Leonardo Ribeiro, consultor do
Senado, o chamado Orçamento Secreto foi criado pelo Congresso em reação à
decisão inicial de Bolsonaro de não aceitar indicações políticas para ministérios
que gerenciam gastos importantes em todo o país.
Na avaliação de Ribeiro, como a classe política perdeu a gestão de parte
do orçamento federal por meio do controle dos ministérios, lideranças do
Congresso decidiram então trazer esse orçamento para dentro do Parlamento.
Ele lembra que no sistema brasileiro, conhecido como presidencialismo de
coalizão, o presidente costuma formar sua base no Congresso negociando acesso a
cargos e verbas federais. Ao romper com essa lógica no início do seu governo,
Bolsonaro acabou provocando essa reação do Congresso, acredita o especialista.
Depois, porém, o presidente acabou aceitando indicações políticas para
diversos cargos de primeiro e segundo escalão. O senador Ciro Nogueira, por
exemplo, do PP do Piauí, comanda uma das pastas mais importantes, a Casa Civil.
Para Ribeiro, o governo que quiser reduzir o orçamento alocado nas
emendas de relator, necessariamente terá que nomear ministros indicados por
partidos.
"O próximo presidente possivelmente vai ter que trazer mais
políticos pra Esplanada (de Ministérios) se tentar diminuir esse orçamento,
porque o Congresso, necessariamente, vai participar da gestão, ou via emendas
ou via ministérios. Tentar sair dessas dessa equação não funciona no Brasil. A
gente teria que ter um outro sistema político, um outro arranjo
institucional", analisa Ribeiro.
3. As críticas e indícios de
corrupção
As principais críticas às emendas do relator são a falta de
transparência e de planejamento nos uso desses recursos. Segundo especialistas,
isso acaba dificultando a fiscalização e, como consequência, facilitando
esquemas de corrupção.
O Orçamento Secreto não tem nem três anos de duração e já houve uma
série de denúncias reveladas pela imprensa brasileira, em especial pelo jornal
O Estado de S. Paulo, primeiro veículo a destrinchar o funcionamento das
emendas de relator.
Em reportagem de maio de 2021, por exemplo, o jornal revelou que ao
menos R$ 271,8 milhões foram usados para aquisição de tratores,
retroescavadeiras e equipamentos agrícolas, em geral por valores bem acima dos
previstos na tabela de referência para compras do governo, num indício de
compras superfaturadas.
As máquinas são destinadas a prefeituras para auxiliar nas obras em
estradas nas áreas rurais e vias urbanas e nos projetos de cooperativas da
agricultura familiar.
Já uma reportagem da revista Piauí mostrou como municípios do Maranhão
inflaram artificialmente os números de atendimento pelo SUS para receber uma
fatia maior das emendas do relator. No final de agosto, a Justiça Federal do
Maranhão bloqueou parte desse repasse de verbas.
Após o Orçamento Secreto ser questionado no Supremo Tribunal Federal, a
Corte determinou que o Congresso desse total transparência às emendas do
relator. Em resposta, a Comissão Mista de Orçamento criou um portal em que os
pedidos passaram a ser registrados. Mas, para especialistas em transparência, a
ferramenta ainda é insuficiente.
Um dos problemas apontados é que é possível inserir como autor do pedido
não apenas nomes de parlamentares, mas também pessoas, entidades e órgãos de
fora do Congresso. A organização Contas Abertas fez um levantamento dos dados
disponíveis e encontrou uma série de inconsistências.
"Dentre os R$ 12,3 bilhões das indicações dos 'autores', cerca de
R$ 4 bilhões, ou seja um terço das indicações, são atribuídas a 'usuários
externos'. Dentre os usuários externos, existe um classificado simplesmente
como 'assinante', que indicou R$ 23,6 milhões em emendas de relator",
exemplificou o economista Gil Castello Branco, diretor da organização Contas
Abertas, em resposta por escrito à reportagem.
Outro problema, acrescenta Castello Branco, é que esses dados continuam
fora dos sistemas que permitem fiscalizar melhor os gastos do governo federal,
como Siga Brasil e Portal da Transparência.
Para além das denúncias de corrupção, os especialistas consideram grave
a falta de planejamento no uso desses recursos. A distribuição é feita sem
critérios objetivos e, embora alguns parlamentares de oposição também tenham
tido acesso a parte das emendas de relator, o grosso do dinheiro costuma ir
para a base governista.
Na prática, cidades que têm maior carência para receber algum
investimento em saúde e educação, por exemplo, acabam sendo preteridas em favor
de outras em que determinados parlamentares têm mais votos, explicou à
reportagem a procuradora do Ministério Público de Contas do Estado de São Paulo
Élida Graziane.
"O Orçamento Secreto balcaniza, pulveriza o dinheiro público,
quebrando a racionalidade do planejamento de cada política pública, o que só os
ministérios conseguem fazer em âmbito nacional, porque aí a concepção da
política pública ela é concentrada em quem tem capacidade de planejar o
território inteiro do país, não apenas atender à base eleitoral de um
determinado parlamentar", disse Graziane.
"A opacidade e a falta de critérios técnicos realmente
potencializam em muito o puro e simples desvio de recursos públicos, o
enriquecimento ilícito, em última instância, conjugado com estratégias de
lavagem de dinheiro", reforçou a procuradora de Contas.
Castello Branco tem a mesma leitura. "Os dados mostram que os
recursos bilionários são distribuídos sem qualquer critério técnico ou
parâmetro socioeconômico, o que distorce as políticas públicas e amplia as
desigualdades regionais e municipais", ressaltou.
A BBC News Brasil questionou a Secretaria de Comunicação da Presidência
da República e as assessorias de Rodrigo Pacheco e Arthur Lira sobre as
críticas às emendas do relator, mas os três optaram por não se manifestar.
Procurado, o presidente da Comissão Mista de Orçamento (CMO), deputado
federal Celso Sabino (União-PA), disse que retornaria à reportagem, mas não o
fez até a publicação.
4. Mensalão x Orçamento Secreto
Tanto o Orçamento Secreto quanto o Mensalão serviram para que o Palácio
do Planalto construísse uma base de apoio no Congresso. Mas, segundo
especialistas, há diferenças importantes entre eles.
No caso do Mensalão, o Ministério Público concluiu em 2012 que foram
desviados ao menos R$ 101 milhões, por meio de fraudes envolvendo contratos de
publicidade de órgãos públicos. O STF condenou integrantes da cúpula do PT por
entender que esses recursos serviram para o pagamento de "mesadas" a
parlamentares da base do governo.
Para a procuradora de Contas Élida Graziane, o Orçamento Secreto se
assemelha a outro escândalo de corrupção, revelado em 1993 e conhecido como
Anões do Orçamento.
Naquele caso, parlamentares que comandavam a Comissão de Orçamento
desviavam recursos de emendas em favor de entidades de assistência social
criadas por eles mesmos. Havia também emendas para obras superfaturadas em
troca de propina paga por empreiteiras.
"O mensalão em si não é tão próximo (do Orçamento Secreto) porque
se adotava a estratégia de entregar (o comando de) entidades da administração
indireta para algum nível de administração de parlamentares que indicavam
(pessoas para esses cargos) e aí eles distribuiriam valores em específico para
os parlamentares. E, mesmo assim, aquilo que se desviou no âmbito do mensalão,
(era) proporcionalmente muito menor do que o Orçamento Secreto", nota
Graziane.
Já o consultor do Senado Leonardo Ribeiro destaca outra diferença. Na
sua avaliação, embora haja problemas nas emendas do relator, elas foram criadas
dentro dos mecanismos fiscais previstos na Constituição e nas leis
orçamentárias, que permitem ao Congresso dispor de emendas parlamentares. Já o
Mensalão, ressalta ele, era algo à margem da lei.
"Você pode até criticar o RP9 (código que identifica as emendas de
relator no Orçamento), mas ele está dentro de um processo regulado. Você pode
até aperfeiçoar a regulamentação, e deve, no sentido de qualificar o Congresso
e deixar essa dotação mais eficiente. O Mensalão não estava num arranjo
regulado. Um pouco complicado comparar os dois", afirma Ribeiro.
- Este texto foi publicado em http://bbc.co.uk/portuguese/brasil-62792795
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